quinta-feira, 4 de junho de 2009

A RESPEITO DE ARQUIVISTAS E ANTI-HERÓIS

Às vezes uma grande obra pode surgir de algo aparentemente despretensioso e desinteressante. Esse é o caso do filme “American Esplendor”, adaptação da HQ de mesmo nome, chamado no Brasil de “Anti-herói Americano”.
Pra quem acha que o filme não pode ser bom ou sério por ser proveniente da mídia em quadrinhos, aqui vai um resumo básico e raso da história.
O arquivista de um hospital, Harvey Pekar, após conhecer um futuro grande artista das HQs independentes chamado Robert Crumb (autor de “Fritz, The Cat”), decide escrever roteiros para quadrinhos inspirados em suas desventuras diárias, tanto no emprego quanto na sua conturbada relação com amigos e com sua esposa. O retrato que ele faz é tão simples quanto envolvente, e
torna-se impossível não se identificar com o cara que faz críticas de discos de jazz nas horas vagas, e trabalha num arquivo (especialmente pra quem cursa Arquivologia).
Pra falar a verdade, só essa inusitada combinação de “história de um profissional de arquivos, que escreve roteiros de HQs underground” é por si só motivo suficiente pra assistir o longa-metragem, mas não é apenas por isso que eu o recomendo. Trata-se de um olhar mais humano vindo de alguém que trilha a mesma carreira que muitos de nós vão seguir, através de um ótica menos fantasiosa e mais crível sobre a vida de um profissional da área, mesmo que o longa-metragem não seja especificamente sobre isso. Ainda que em um curso tão tradicional muitas vezes se espere que aceitemos as coisas sem questionar, é inegável que nem todos vislumbram um futuro profissional tão glamouroso quanto o discurso padrão de alguns professores insiste em relatar.
E se isso já é prato cheio pra discussão, a narrativa consegue ir ainda mais longe, mostrando o verdadeiro Harvey em cena, e levando o real a se confundir com o personagem, questionando inclusive sua própria existência. Seria o autor dos roteiros na verdade o personagem desenhado nas páginas das revistas que escreve? Falando assim pode até parecer muito complicado, porém assistindo o filme fica claro até demais.
Aliás, obviamente não foram à toa os prêmios no Festival de Cannes e no Oscar.
A vida rotineira é complexa, afirma Harvey, e talvez pareça que a vida dele é realmente mais estranha e excêntrica que a do resto de nós, mas, será mesmo?
A diferença da realidade retratada na tela em relação à nossa está no modo como ele consegue ver o próprio dia-a-dia, atribuindo valor e um humor ácido e peculiar ao que há de frustrante em seu cotidiano.
Na verdade, a vida de todo mundo poderia virar um bom roteiro.
E mesmo que nem todos nós venhamos a nos tornar arquivistas, com certeza somos todos anti-heróis.

2 comentários:

  1. A questão do "muitas vezes se espera que aceitemos as coisas sem questionar" é algo realmente forte na curso!! acredito eu

    há o questionamento do quanto querem que sejamos "bitolados"?? aparentemente uma parte de nossos professores, deseja apenas que nós saibamos reproduzir com exatidão o que nos é ensinado!!
    sem nunca duvidar, questionar, propor novos meios!!
    é o que há, e pronto!!!
    talvez ai se explique porque a arquivologia atual, enquanto teoria, é quase igual à arquivologia de 50 anos atrás.

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  2. Fico extremamente tocado e profundamente feliz com o exposto. É incrível, realmente incrível, que possamos "conhecer" os colegas mais profundamente através do mundo virtual. Esse meio está proporcionando uma nova visualização de vários temas acerca do nosso curso. Confesso que ainda não assisti ao filme comentado (muito bem, por sinal), o qual reflete (e refletirá para muitos)a situação social, econômica e profissional. Ouço muito em relação ao filme em questão, e não me perdoo (quase esqueço da reforma ortográfica novamente)de não ter visto ainda. As recomendações esclarecem e muito a história e a narrativa do filme, o que é muito atraente, apesar de eu ser meio suspeito pra falar, por gostar em termos da área de arquivo (ainda não me achei direito em algumas questões) e dos quadrinhos (já fui chamado por certos alguéns de nerd no curso). Concordo com o exposto, porque sempre querem nos formar (no sentido literal de "por em formas", bitolados, certinhos, padronizados. Só falta colocar um código de barras na testa de cada um. Ainda bem (grande ideia) de termos um meio de expor pelo menos parte dos nossos problemas em relação ao curso.

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